 |
|
|
Um pouco de poesia...
Abaixo, um trecho de "Paisagem Feita de Tempo", livro de Joãozinho Ribeiro, a ser lançado em breve:
(...)
cidade que até hoje não compreendo
quando embarca meus olhos
nas luzes da madrugada
pela barragem do Bacanga,
Sá Viana, Anjo da Guarda
até deparar com as garras
dos tratores sangrando a terra
para o futuro banquete
de vampiros capitalistas
porque a madrugada está na Cidade
e a Cidade também está nela
se espreguiçando
nas bancas do Mercado Central
nos quiosques do Portinho
assumindo sua própria forma e cor
na madrugada se engalfinham
os últimos suspiros da noite
com a vontade de ser do dia
verdureiros da Maioba
meninos sonolentos
tudo se transformando
num crescendo irreversível
que desemboca na manhã
com a abertura das escolas e feiras
manhã necessária
para a movimentação do calendário
das pernas, das rodas,
da cidade e do povo;
para internar as pessoas
nos seus difusos ofícios
e produzir novos valores
com o fruto de seus trabalhos
(...)
Escrito por Zema Ribeiro às 13h32
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
Texto nosso, publicado hoje pelos jornais Pequeno e Diário da Manhã
MEIO SÉCULO DE VIDA: UMA VIDA INTEIRA DE ARTE*
São Luís do Maranhão se enfeita para o baile de cinqüenta anos de Joãozinho Ribeiro, que tanto relegou sua obra em prol da mãe-cidade, paisagem feita de tempo, importantíssima personagem de sua vida e obra, que se confundem.
por Zema Ribeiro
Um dos mais importantes nomes da cultura popular, não só do Maranhão, mas do Brasil, completa 50 anos de idade neste 29 de abril. João Batista Ribeiro Filho, o popular Joãozinho Ribeiro celebra meio século de vida, vida esta caracterizada por lutas sempre em prol da coletividade. Cedo, aprendeu a tocar violão, educado pelas vitrolas da Zona do Baixo Meretrício, para onde se mudou com a família, menino ainda. Orlando Silva, Francisco Alves e Ângela Maria eram algumas das vozes cujas agulhas das vitrolas arranhavam as almas dos boêmios errantes – ele mesmo um dos milhões de uns, depois.
Arranhado por um câncer aos dez anos de idade, Joãozinho resistiu. Estudou. Quase economista. Quase engenheiro. Bacharel em direito, nunca chegou a exercer a profissão. Técnico da Receita Federal. Pós-graduado em Direitos Autorais, começou neste ano de seu cinqüentenário, a dar aulas de Propriedade Intelectual para os alunos do oitavo período do Curso de Direito da Faculdade São Luís. A cidade (e a faculdade) precisa(m) ouvir João.
Fundador do Partido dos Trabalhadores, é responsável por seu setorial de cultura no Estado do Maranhão. Artista militante, é membro do Conselho Consultivo da Sociedade Maranhense de Direitos Humanos-SMDH. Principal articulador de diversas “confusões” (como ele mesmo gosta de dizer, no bom sentido) Ilha afora: Fórum Municipal de Cultura (cuja quinta edição foi realizada em setembro passado), Feiras Culturais da Praia Grande, Semanas Culturais do Desterro, Seminários de Desenvolvimento Territorial Sustentável – Desterro, Portinho, Praia Grande, circuito musical Samba da Minha Terra, Serenata dos Amores etc. Joãozinho Ribeiro é uma das figuras mais requisitadas para palestras, conferências, fóruns, seminários e debates país afora.
Para celebrar estes cinqüenta anos bem vividos, uma turma de amigos está reunida com vistas a resgatar e tornar (mais) pública ainda, a obra de Joãozinho, sempre relegada por ele a um segundo plano em prol de outros projetos. O Projeto “50 & Tantas” será lançado oficialmente nesta sexta-feira, 29 de abril, na Igreja do Desterro, onde às 19h uma missa será misturada a teatro, poesia e música, num pirão religioso-profano de farta sustança. Em maio, o poeta lança seu livro “Paisagem Feita de Tempo”, escrito há vinte anos. No segundo semestre seguem o disco “Coisas que Acredito” e o DVD “Do Ofício de Viver e Outros Vícios”. Bem vindos à aventura do reencantamento!
* Título copiado das comemorações pelos cinqüenta anos do Jornal Pequeno: “Meio século de vida: uma vida inteira de luta”.
Escrito por Zema Ribeiro às 08h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
50 E TANTAS
Hoje completo um ano de blog. Somando o endereço antigo, é claro! Começo as comemorações em mais uma edição d'A Vida é uma Festa!, logo mais, na Praia Grande. Por enquanto, deixo um texto emocionado e sincero de Cláudia Lobo, em homenagem a Joãozinho Ribeiro, que amanhã completa cinqüenta anos de história.
DEVO AO NEGRO: NÃO NEGO!
por Cláudia Lobo*
Sempre que desço ladeiras do Desterro sinto a sensação de que ali há alguém com cheiro de raça, cor de cultura, jeito de história e história de causo. Caminho sempre naquele lugar e me invade o orgulho de saber que é meu também aquele espaço, pedaço da vida que hoje sei amar.
Quando carrego uma bandeira, consciente das transformações que esse gesto poderá causar, penso que há alguém com o perfil da luta, a cor do trabalho, cheiro de terra e pose de rei. Já carrego bandeiras há um bom tempo e faço de cada passo um motivo pra continuar caminhando na luta pelo bem comum.
No momento em que escrevo, vejo-me crítica dos meus pensares e crenças, mas sempre busco alguém com o perfil de filósofo da vida, pedagogo da arte, psicólogo dos ébrios. Aprendi, no entanto, a respeitar os erros e deixar o coração ditar as palavras, corrigindo verbos e impondo adjetivos.
Muita coisa tenho aprendido desde que pisei na Ilha e encontrei alguém com perfil de Desterro, cheiro de mestre e cor de raça, que me mostrou que a diferença entre história e causo está na importância da bandeira que se carrega.
Hoje sou capaz de deixar o coração falar sem pensar nos julgamentos alheios, faço de cada ato um conto e de encanto o ato de sobreviver. Devo muito e não quero encerrar a conta.
Meu credor é o negro João.
O tal de Joãozinho, poeta da vida, das ladeiras, dos becos e das bandeiras. Amigo da arte, filho da cultura, irmão do tempo.
Hoje posso muita coisa, mas não sei o que fazer pra mostrar tamanha admiração por este perfil de história, exemplo de vida, lição de coragem.
Parabéns é pouco, mas não consegui descobrir nenhuma palavra que mostrasse o tamanho da emoção em ver e ter participado da vitória do negro João.
* Cláudia Lobo é Secretária de Organização do Partido dos Trabalhadores – PT de São Luís-MA.
Escrito por Zema Ribeiro às 08h56
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
DOIS LINKS NOVOS
Vale visitar esse Palco nada Submerso e o mais atingível que nunca Ponto Gê.
Escrito por Zema Ribeiro às 14h43
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
SOBRE PÓLO SIDERÚRGICO...
Aos que acham que São Luís do Maranhão é o melhor lugar do mundo para a implantação deste mega-empreendimento (não sei de onde tiraram essa idéia!), deixo a seguir, um poema de José Chagas, de 1983, do livro Maré de Aço (Onda de Alumínio) ou O Naufrágio da Ilha. (Pesquei recentemente a obra, por módicos R$ 3,50, no Papiros do Egito, à Rua da Cruz, Centro).
Ninguém é contra o progresso.
Mas que ele não nos degrade todo o amor que está impresso no coração da cidade.
Que ele não nos elimine o fervor que nos irmana.
– Mais do que aço e alumínio vale a natureza humana.
Escrito por Zema Ribeiro às 13h20
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
MEU MSN MESSENGER, A QUEM INTERESSAR POSSA...
zema_ribeiro@hotmail.com
Escrito por Zema Ribeiro às 16h18
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
da Folha de São Paulo, 21/4/2005
A REPÚBLICA DOS DOUTORES
por Contardo Calligaris
Numa época, as universidades particulares procuravam ansiosamente por doutores. O fato é que, para autorizar novos cursos, o Ministério da Educação exige que o corpo docente inclua pesquisadores qualificados, ou seja, doutores.
Ultimamente, as universidades particulares descobriram que o salário dos doutores é caro. Na medida do possível, querem substituí-los por mestres e graduados.
Esse cálculo poderia comprometer a qualidade do ensino. Mas não é o caso de preocupar-se: os donos das universidades particulares não acharão os mestres e os simples graduados necessários para efetuar a substituição, pois, no Brasil do começo do século 21, só há doutores. Prudente de Moraes pode festejar: a República dos Bacharéis se pós-graduou.
Faça a prova: ligue para advogados, psicólogos, arquitetos e outros profissionais liberais. Ouvirá: "A doutora está em consulta", "Vou ver se o doutor pode atender". Ligue para uma agência de publicidade, um escritório comercial ou uma empresa e tente falar com um dirigente (engenheiro, arquiteto, administradora etc.). É a mesma coisa: "O doutor está em reunião", "Quer deixar um recado para a doutora?".
Mas, trégua de brincadeiras. Em geral, esses profissionais não se apresentam como doutores num encontro com membros de sua classe social. Eles são doutores para suas secretárias e, graças a elas, para quem telefona.
Algumas semanas atrás, para assinar um contrato, fui até um elegante escritório comercial, na área de São Paulo (ao redor da avenida Berrini) que se apresenta como cartão-postal da modernização. Anunciei ao porteiro que eu devia encontrar o senhor E., que estava me esperando. O porteiro, modulando a voz de modo a acentuar a correção de minhas palavras, perguntou: "Você quer ver o doutor E.? E você é o senhor...?". Ele parecia treinado para produzir uma tentativa de intimidação social. Não achei graça e retruquei: "Ah, o senhor E. é doutor? Ele é médico ou tem doutorado em alguma outra especialidade?". O porteiro ficou atônito: como ele deveria reagir a essa resposta imprevista? As regras do uso legítimo do título de doutor dizem que doutores são os que completam um doutorado e, por consideração especial, os médicos. Não sei se o porteiro conhecia essas regras. No entanto, graças a uma sabedoria vital em nosso mundo, ele sabia certamente que o título de doutor do senhor E. não designa uma excelência acadêmica, mas serve para significar uma distância social. (continua)
Escrito por Zema Ribeiro às 10h03
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
No caso, não há diferença nenhuma entre ser doutor e ser marquês de Carabás: ambos são títulos cujo uso vale como um gesto de submissão, como uma genuflexão. Reconhecendo que o senhor E. pertence a outra casta, o porteiro me convidava a dar prova da mesma deferência.
Ora, a modernidade triunfa quando a diversidade das origens, das funções sociais e das condições econômicas não altera o fato de que somos todos essencialmente iguais.
Na adolescência, participei da fundação de um pequeno círculo liberal "extremista", em que a gente praticava o costume jacobino de chamar os outros de "cidadão" ou "cidadã" (título que era para nós uma honra suprema), acompanhado da função de cada um: cidadão professor, cidadã estudante, cidadão carpinteiro. Um pouco mais tarde, sonhei com um mundo em que nos chamaríamos um ao outro de "companheiro" ou "companheira".
Isso acontecia numa outra sociedade de doutores, a Itália dos anos 60. A sociedade italiana acabava de se tornar republicana e vivia um conflito agudo entre a modernização acelerada, as desigualdades econômicas violentas e a nostalgia das antigas hierarquias. Com isso, as diferenças sociais modernas (diferenças de formação e de função) eram extraviadas e usadas como indicadores de privilégio e de casta. "Doutor", um título que deveria assinalar a competência específica de um cidadão, era usado para afirmar que ele pertencia à tribo dos abastados.
Entre parênteses: a universidade italiana, cúmplice do atraso nacional, chamava de "doutor" qualquer graduado.
A alusão a uma educação superior, que é contida no título "doutor", serve também para justificar o privilégio: se alguém é doutor, "merece" ser rico. Com isso, a classe média, sempre ameaçada por seu retrocesso, pode acreditar que seu privilégio não seja arbitrário e efêmero. Explica-se assim o mistério das reuniões de condomínio em que todos os condôminos são doutores e doutoras.
Enfim, é provável que o uso de "doutor" como índice e justificação do privilégio social seja um sintoma constante em todas as sociedades em que formas arcaicas de domínio desvirtuam as formas modernas da diferença social. "Doutor", nessas sociedades, não é médico nem pós-graduado: é quem tem cartão de crédito, acesso à sala VIP do aeroporto e carro importado.
Nota. A república dos doutores é especialmente risível hoje, quando a hierarquia social que parece contar é aquela produzida pela notoriedade. Nessa hierarquia, o que importa não são os títulos, mas os nomes próprios, à condição que sejam reconhecíveis. Você acha que Giorgio Armani e Paulo Coelho querem ser chamados de dr. Armani e dr. Coelho?
Escrito por Zema Ribeiro às 10h02
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|
 |
| [ ver mensagens anteriores ] |
|
 |


|
 |