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27 de janeiro

Quando participávamos juntos de reuniões de trabalho, ainda não nos conhecíamos direito. Ali eu percebia uma inteligência fora do comum. Alguém de quem, eu me dizia, deveria aproximar-me. Um dia, descobri que ele gostava de cerveja e mandei: “rapaz, acho que tá na hora de a gente bater um papo tomando uma!”. Nem sei se ele lembra do episódio, ali pelo ano dois mil; sua resposta veio rápida, até hoje não sei se brincadeira ou se ele realmente pensava que eu era menor de idade: “eu não bebo com menores”. Eu, dezoito anos completos, saímos para beber ao fim do expediente e agendamos minha primeira viagem à mágica cidade de Alcântara. Iniciava-se ali uma das mais belas amizades que fiz. Mais que amigo: irmão, pai e, por que não?, às vezes, filho. Mais que tudo isso: mestre. Parabéns, Gildomar! Um feliz aniversário! Um brinde!

Escrito por Zema Ribeiro às 14h58
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Bob Dylan: "No Direction Home"

[Diário Cultural de hoje]

Em mais de três horas de documentário, o diretor Martin Scorsese mostra um Bob Dylan pouco conhecido do grande público. Misturam-se canções, depoimentos – do mito vivo e de amigos – e vasto material inédito. A trilha sonora apresenta o sétimo volume de “The Bootleg Series” e traz um punhado de canções conhecidas em novas roupagens. Não, não se trata de mero caça-níquel.

É óbvio não esperar, nunca, o óbvio de Bob Dylan. E muito bem fez isso o diretor Martin Scorsese. Em “No Direction Home” (EUA, 2005) mais que um documentário. Uma bela pintura sobre a trajetória musical do “maior poeta da música popular mundial em todos os tempos”, como atesta o insuspeito bamba Zeca Baleiro.

O filme – um dvd duplo, que é muito assunto! – foca a carreira de Mr. Robert Zimmerman – nome de pia de Dylan, que assim se assumiria por causa do poeta Dylan Thomas – de seu início até o ano de 1966, quando este admite a “eletricidade” em sua música e passa a se apresentar acompanhado de uma banda, tocando guitarra e “desagradando” seu público.

“Judas!”, grita um fã em determinada cena. “Eu não acredito em você”, responde Dylan, à altura. Entrecortam-se cenas depoimentos dele, hoje, e de amigos, apresentações dele, de amigos e de ídolos. Destaque para as aparições de Joan Baez, Allen Ginsberg e Woody Guthrie, este último em imagens antigas, em p&b, um dos responsáveis pelo que Dylan iria fazer com sua música.

Histórias se misturam. Como o encontro entre Dylan, os Beatles e o poeta Allen Ginsberg num camarim. Clima sério e o autor de “Uivo” senta no colo do jovem John Lennon e logo tudo muda de figura. Ou quando numa entrevista, perguntam ao mito vivo: “Quantas pessoas estão fazendo música de protesto hoje?”, e ele sarcástico responde: “136... ou 142”. Dylan detestava o rótulo de “cantor de protesto”. Talvez por não se enquadrar em rótulo nenhum. Talvez por ir além de qualquer rótulo. Ou a gravação do primeiro disco de Dylan. Um monte de músicas conhecidas. “House of The Rising Sun” está lá. Era um Dylan intérprete, meramente. Que podia muito bem desagradar, já que sabemos, sua força está nas letras que faz, além do modo como toca violão e gaita. Mas não foi um fracasso e a carreira continuou sólida. E ele começou – e continuou – a compor. Ainda bem.

A amizade de Scorsese com Dylan ajudou bastante na realização deste filme. O segundo abriu seu baú ao primeiro, de onde saiu muito material inédito. O resultado, nada maçante, é visto em mais de três horas de uma comprida e interessante aula sobre rebeldia. Com boas causas.

A trilha sonora

Em cd duplo, um passeio musical por Bob Dylan entre 1959 e 1966. Gravações ao vivo, demos, material inédito, raridades enfim. A caixa, luxuosa, traz além dos discos, um livreto colorido com fotos inéditas, textos e detalhes sobre as gravações, em mais de sessenta páginas. Chega-se assim ao sétimo volume da série “The Bootleg Series”.

Estão lá os clássicos onipresentes de Dylan, como “Blowin’ in the Wind”, “Mr. Tambourine Man”, “Like a Rolling Stone” e “It’s All Over Now Baby Blue”, em roupagens diferentes das conhecidas, além de canções menos “populares”, como “When I Got Troubles” e “Rambler, Gambler”, entre outras.

Cds e dvds são vendidos separadamente. Levar esses Dylans para casa custa, em média, R$ 100,00. Valem cada centavo.



Escrito por Zema Ribeiro às 09h27
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Na cozinha

Não, não tenho a mínima habilidade nesta parte da casa. Lá, eu só entendo de comer, e olhe lá. Mas aqui vão duas receitas muito fáceis. Tão fáceis que andei praticando-as, nos últimos dias.

Molho de Pimenta Murici

Um punhado de pimenta murici (a gosto); coloque as pimentas num recipiente (por exemplo, um vidro de molho de pimenta usado; lave, para não pegar o sabor da pimenta velha) e cubra-as com leite de coco. Deixe descansar por oito dias, no mínimo, sacudindo o recipiente sempre que lembrar. Após isso, é só apreciar o leve ardor numa carne de sol, peixe ou outro prato escolhido por você.

Gasosa de Bacuri

Tem que ser da fruta. Há tanto tempo eu só tomava suco da polpa do bacuri que já nem sabia que a fruta ainda existia. Brincadeiras à parte, o negócio é o seguinte: com a fruta você faz sucos, cremes e outras iguarias. As cascas, em vez de ir para o lixo, terão o seguinte destino: a parte externa será lavada com água (para tirar a terra, poeira e essas coisas) e depois serão cobertas com água filtrada (num balde ou outro recipiente grande e com tampa); daí ficam de molho por três dias (isso, setenta e duas horas). Depois, as cascas são retiradas e aí sim, vão pro lixo. A água que fica, passa por um crivo e pode ser armazenada em garrafas pet usadas (também lavadas, para não interferir no sabor). É só adicionar açúcar a gosto (geralmente muito!) e tomar este delicioso e "inusitado" suco.



Escrito por Zema Ribeiro às 16h57
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É por aí...

"Tomo meus venenos, mas não fico falando por aí que isso é bacana: sei o preço que vou pagar por isso. Minha assessora de imprensa que não me ouça - mas já tomei tudo o que você possa imaginar. Hoje meus únicos venenos são o tabaco, o café, o lorax [tranqüilizante que o "bife" ingere desde os 21 anos] e o nanquim. É hipocrisia você querer distanciar o homem de seus venenos. Precisamos falar abertamente sobre essa questão, com responsabilidade. Todos precisamos de venenos."

Lourenço Mutarelli, em "Bife que desenha", matéria/entrevista de Ronaldo Bressane para a Revista Trip, junho de 2001



Escrito por Zema Ribeiro às 17h16
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Mais um domingo de pré-carnaval

(ou: O "pancadão" madredivino, volume dois)

[Tá, talvez eu esteja ficando chato. Talvez? Ficando? Tá, eu sei que eu SOU chato. "Tá incomodado? Se mude!", recomendaria algum adepto da lixeira musical. Não acredito que eu esteja errado, como os críticos que disseram que o rock era lixo, em sua gênese; será que um dia hão de me mostrar e provar que a "nova" onda é que é a verdadeira música feita por verdadeiros gênios para o consumo de pessoas verdadeiramente inteligentes? Não creio, sinceramente. Abaixo, o Diário Cultural de hoje.]

“Finalmente um domingo de pré-carnaval de verdade”, pensou o cronista pela manhã, ao ouvir, ao longe, o batuque de um bloco tradicional. Engano, ele perceberia à noite, enquanto namorava e bebia algumas cervejas na Praça da Saudade. Soubesse, teria aproveitado a missa para rezar para que o carnaval maranhense tenha uma boa morte (na UTI ele já está!). Ao menos o cemitério fica próximo. Que a terra lhe seja leve!

Há razão em dizer que, no Brasil, o ano só começa depois do carnaval. A turma tem muito pique. Era mais um domingo de pré-carnaval. Gastei-o em curtir a preguiça natural das manhãs dominicais e em curar uma leve ressaca adquirida numa ótima festa em que estive presente no dia anterior, emendando-a com a madrugada de domingo. Música e literatura como companhia, eu esperava a tarde/noite para ir à missa com a namorada e depois “cair no frevo”.

Manhã. Tambores, ao longe, me (des)enganavam. Sim, eu estava ouvindo um batuque de carnaval. De carnaval maranhense. “Opa, hoje estaremos livres dos pancadões”, pensei. Um sorriso percorreu-me a face. Era o “terceiro domingo comum”, conforme a igreja católica me diria mais tarde; e somente agora, carnaval de verdade.

Tarde. Após um delicioso peixe cozido no almoço, mais um pouco de sono, para ficar inteiro de vez. E mais literatura. E mais música. Missa às 18h. Depois, Madre Deus. Sim, hoje seria diferente.

Noite. “Cair no frevo” é força de expressão. “Acho que estou ficando velho”, eu dizia para a namorada. “Já não tenho mais o mesmo ânimo para o carnaval”. Ela concordava. São Pantaleão, Norte, Praça da Saudade, Largo do Caroçudo. Tudo cheio demais e nada nos agradava. É, estávamos meio ranzinzas. Optamos por um bar em frente à “praça do cemitério” – como é mais conhecida a citada Praça da Saudade – observando o movimento. Na verdade não optamos pelo bar: foi o único onde encontramos uma mesa e duas cadeiras desocupadas. Providencial. “É isso que eu gosto de fazer: escolher um local, me posicionar e ver ‘o bloco passar’”, eu disse. “Uma cerveja!”.

Uma aparelhagem de som na praça anunciava, deduzi: logo um bloco se apresentaria por ali. “Carnaval de verdade”, pensei mais uma vez, apesar de tudo: carros, parados ou passando, com porta-malas abertos em alto volume (na verdade os porta-malas de carros mudaram de lugar, já que hoje os “malas”, em sua grande maioria, ocupam o volante), dvds exibindo as porcarias da música baiana ou do pseudoforró cearense ou de qualquer outra coisa que a renitência e a chatice deste cronista costuma chamar de “lixo musical”.

Os tambores de um bloco “tradicional” (entre aspas, já não sei se minha antipatia ainda permite designá-lo assim) aqueciam pelas mãos de “foliões” (entre aspas pela mesma razão). Logo estava formada uma babel sonora, para tristeza de meus ouvidos. Iludido, eu ainda esperava ver um carnaval de verdade, quando conseguia, no baralho auditivo, distinguir sons vários: o dos carros, o dos dvds, o batuque do bloco, além de alguns outros que, assim como apareciam, sumiam.

Dali a pouco, o tal bloco entrava em cena definitivamente, com o vocalista assumindo o microfone ligado à aparelhagem instalada na praça. Qual não foi minha surpresa, durante os pouco mais de quinze minutos em que conseguimos permanecer ali, enquanto terminávamos a última cerveja: em ritmo de carnaval maranhense (quem nunca ouviu o batuque de um bloco tradicional não saberá do que estou falando), foram interpretados diversos “sucessos” do “monturo” musical que assola o país.



Escrito por Zema Ribeiro às 09h36
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Cronista de TERNO, a experiência

“Não diria que eu tenho um sonho de consumo, mas gostaria de um dia poder viver da escrita e poder fazê-lo em casa, de calção e chinelos”, costuma repetir o cronista. Contente com o “dez” na monografia de uma prima da mulher amada, no Curso de Medicina da Federal, e apaixonadíssimo, num gesto inédito, botou um terno e foi ao baile. Não foi barrado e gostou muito da experiência. “Mas vou propor à minha turma que faça a festa de formatura com todos vestidos de forma simples, com churrasco, à beira de uma piscina”, adianta. A foto que ilustra este texto está disponível em meu fotoblogue (link ao lado).

Os que conhecem o cronista sabem de sua preferência pelo simples. No vestir, não é diferente: calção, chinelos, de preferência havaianas (sem merchandising), camiseta regata, “São Luís é quente, pra quê mais que isso?”, pergunta/argumenta, e sua pochete, inseparável. “Sem a pochete é como se eu perdesse uma parte de meu corpo”, costuma dizer ele sobre o quase-apêndice.

Quando soube que iria à formatura de uma prima da namorada, “em medicina”, ficou agoniado. “Terno?, carece mesmo tudo isso?”, “Claro! É só uma noite”. Tudo bem. O que não fazia o amor? Pensou em comprar um. Duzentos paus, em média. “Não usarei um termo tão cedo”. Aluguel: quarenta e cinco. Resolvido.

Na locadora, experimenta daqui, experimenta dali. Tá apertado. “A gente folga”. Tá folgado. “A gente aperta”. Estica daqui, puxa dali, “como é que folga essa gravata? E o lance do nó?”, não tinha experiência nenhuma com estes trajes. A moça da locadora teve toda paciência e o cronista saiu dali, “paga a metade agora e a outra metade no recebimento”, deixando reservado o terno.

Era o dia da festa. “Você não está esquecendo o terno, está?”, uma mensagem no celular, sua namorada perguntava. “Estou chegando à locadora”, respondeu. Era quase meio-dia, a velha mania de deixar as coisas para a última hora. Deixou o terno em casa, encontrou dois amigos e tome cerveja a tarde toda. Voltou para casa, cochilou. Com a velha mania de deixar as coisas para a última hora, levantou-se e foi procurar pilhas para a máquina fotográfica. Alguns amigos ficaram sabendo das vestes e “não acredito! Não deixe de tirar retratos, quero ver essa cena única”. Foi em duas farmácias, “sou do tempo em que farmácias só vendiam remédios”, costumava lembrar-se da canção de Zeca Baleiro, quase um dito popular para ele, perto de sua casa e não achou as tais pilhas. “Compro no caminho”. Não comprou.

Vestiu o terno e suou em bicas. Misto de nervosismo, “será que estou bem?”, agonia e calor. Mais um pouco e a namorada o apanharia em casa para o baile.

Na festa, sentou-se à mesa com a namorada, a irmã da namorada e seu namorado, uma prima da namorada – não era a nova médica – e seu namorado e mais um casal que só conheceu ali. A namorada sentada à sua direita; à esquerda, o namorado da prima da namorada. Com este, portou-se como uma velha comadre: “olha só que à toa” e apontava para este ou aquele desalinhado que adentrava o grande salão.

Sempre com a namorada, dançou um pouco de tudo o que a banda tocou. Embora não soubesse dançar. “E você diz não saber dançar, hein?”, ela dizia. “Mas eu não sei”, ele respondia. E dançava. E dançavam. Gostou bastante da festa, serviço de primeira, “não consegui secar meu copo em nenhum instante”.

Chegou em casa, galos cantando ao longe. Logo raiaria um domingo de pré-carnaval, o terceiro domingo comum para a igreja católica. Tirou o traje festivo e pôs logo a beca no plástico (acompanhado da cruzeta) em que a mesma veio da locadora. Na segunda-feira, devolveria tudo, prevendo um diálogo com o rapaz ou a moça do balcão, onde um deles mostraria algum defeito novo na roupa e querendo que ele pagasse a fortuna prevista no termo de responsabilidade assinado por ele: quatrocentos paus o terno, cem a calça, cento e oitenta o sapato, trinta a gravata e por aí vai. O diálogo não aconteceu, ainda bem.



Escrito por Zema Ribeiro às 18h21
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